segunda-feira, 21 de agosto de 2017

[Ensaio] Arte de amar expressa na poesia de Florbela Espanca, por Ana Quintanilha

ARTE DE AMAR EXPRESSA NA POESIA DE FLORBELA ESPANCA





ANA PAULA QUINTANILHA BASTOS DE JESUS



Resumo: O presente trabalho tem como objetivo principal destacar a forma artística que Florbela utiliza em suas poesias com profunda riqueza interior, e que fez poesia de sua experiência de mulher, e assim apresentar uma breve análise crítica reflexiva sobre a utilização da arte em suas poesias ardentes, marcada pela presença do erotismo sincero e ousado para o seu tempo. Assim tomará como objeto de estudo a arte de amar na poesia de Florbela, sendo esse um estudo para conhecê-la melhor e profundamente.


PALAVRAS-CHAVE: Arte. Poesia. Mulher.


CONSIDERAÇÕES INICIAIS


O amor tem sido usado muito, como forma de arte literária por muitos poetas inclusive Florbela Espanca utiliza essa forma artística no decorrer de sua vida. Se o amor foi, e continua sendo tema central de discussões não só na literatura, como em várias áreas do conhecimento. No entanto, esse trabalho abordará prioritariamente a arte de amor como temática de estudo presente em algumas de suas poesias.

“A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente. ”
(Florbela Espanca)
“Minh’ alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim! …”



INTRODUÇÃO


Esse trabalho tem como objetivo apresentar de forma crítica-reflexiva a maneira artística que Florbela Espanca utiliza em suas poesias a forma artística das palavras em relação ao sofrimento e solidão.
Além de estudar a obra poética, foi levantada a cronologia de suas obras e dados relevantes sobre sua biografia. A veemência passional da sua linguagem marcante idiossincrática, centrada nas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. No entanto, esse trabalho abordará prioritariamente como temática de pesquisa a busca incessante do amor incondicional presente em algumas de suas poesias.
“Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém! “                                                                          (...)
O trabalho iniciou-se com a cronologia e curiosidades sobre a vida de Florbela Espanca, juntamente com a bibliografia da poetisa, Em seguida será analisada a forma artística que Florbela utiliza as palavras em sua poesia.


1.      BIOGRAFIA E CRONOLOGIA:
BIOGRAFIA
QUANDO TUDO ACONTECEU... 1894: A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa. - 1915: Casa com Alberto Moutinho. - 1919: Entra na Faculdade de Direito, em Lisboa. - 1919: Primeira obra, Livro de Mágoas. – 1923: Publica o Livro de Soror Saudade. – 1927: A 6 de Junho, morre Apeles, irmão da escritora, causando-lhe desgosto profundo. - 1930: Em Matosinhos, Florbela põe fim à vida. - 1931: Edição póstuma de Charneca em Flor, Reliquiae e Juvenil ia e ainda das coletâneas de contos Dominó Negro e Máscara do Destino. Reedições dos dois primeiros livros editados. Verdadeiro começo da sua visibilidade generalizada.

TEUS OLHOS
“Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.
Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...
Berço vindo do Céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...”
(Florbela Espanca.)



CRONOLOGIA



1894: No princípio da madrugada de 08 de dezembro, nasce em Vila Viçosa (Alentejo), Florbela d’Alma da Conceição Espanca, na casa de sua mãe Antônia da Conceição Lobo, à Rua do Angerino. O pai, o republicano João Maria Espanca, casado com Mariana do Carmo inglesa, providenciará para que a esposa se torne madrinha de batismo da filha, em 20 de junho de 1895, oferecendo-lhe como padrinho o amigo Daniel da Silva Barroso. Embora nos registros da Igreja Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa conste Florbela ser “filha ilegítima de pai incógnito? Será a menina criada pelo pai e pela madrasta desde o nascimento. Igual procedimento se verá da parte de João Maria para com Apeles, o único irmão da poetisa, filho da mesma mãe e do mesmo pai, que vai nascer em 10 de março de 1897. Também como Florbela, Apeles será registrado “filho ilegítimo de pai incógnito.
1899: Florbela frequenta a escola primária em Vila Viçosa. O pai viaja muito, trabalhando, nessa altura, como antiquário, e já em 1900, torna-se um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal, projetando, por todo o país, filmes em salas particulares, graças ao recém adquirido “Vitascópio de Edson? A paixão pela fotografia o levará também, a abrir um estúdio em Évora, o “Photo Calypolense de J. M.. Espanca? Despertando na filha o gosto pelo retrato e elegendo-a o seu modelo predileto, visto que a iconografia de Florbela Espanca, sobretudo a da sua lavra é bastante farta. João Maria Espanca e o pai de Milburges Ferreira (amiga e vizinha Buja, também afilhada de Mariana Inglesa) serão, como republicanos ferrenhos, num tempo em que tal era suspeito, perseguidos ao longo de diversas ocasiões, como inimigos do regime monárquico.
1903: Data de 11 de novembro o poema “A vida e a morte? Provavelmente a primeira peça escrita por Florbela, e a poesia parece ter-se constituído, na infância da jovem, num meio particular de aproximação com os outros, espécie de doação generosa de si mesma, de original presente que ela oferece, sobretudo ao pai e ao irmão, ambos os foco de seu carinho e de toda a sua atenção.
1908: O rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Felipe são, em 1º de fevereiro (dia do aniversário de João Espanca), assassinados em Lisboa, quando voltavam do Palácio Ducal de Vila Viçosa (residência de férias da Coroa), e este é um dos acontecimentos que vão precipitar a instauração revolucionária da República em 05 de outubro de 1910. Florbela ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, de modo que a família muda-se nesse ano para Évora, a fim de facilitar-lhe a permanência nos estudos. Ainda em 1908, falece em Vila Viçosa, a terra natal que a regressara, Antônia da Conceição Lobo, então com vinte e nove anos de idade.
1913: Florbela batiza, em 08 de maio, o primo Túlio Espanca a quem se dedicará sempre com desvelos de assídua madrinha. Este, recentemente falecido, tornar-se-á editor de A Cidade de Évora e importante autoridade nos meios intelectuais portugueses, graças à sua competência de profundo conhecedor de história da arte, vogal das Academias Portuguesas de História e Nacional de Belas Artes, tendo sido encarregado de elaborar, dentre outras obras, o Inventário Artístico de Portugal- Distrito de Évora. No dia do seu aniversário, Florbela casa-se, na Conservadoria do Registro Civil de Vila Viçosa, com Alberto de Jesus Silva Moutinho, um ano mais velho que ela, rapaz que, desde o primário era seu colega de estudos.
1914: Logo em janeiro, Florbela e o marido vão morar em Redondo; ali atravessarão um período econômico difícil, já que se sustentam dos parcos rendimentos das aulas particulares a alunos de Colégio. Por isso, em setembro de 1915, o jovem casal regressará a Évora, para viver em casa de João Maria Espanca e para dar aulas no Colégio de Nossa Senhora da Conceição. Por essa época, Mariana Inglesa já se acha doente (ela morrerá em dezembro de 1925), e o pai de Florbela, sob os olhares complacentes da mulher, vive livremente na mesma casa com a empregada Henriqueta de Almeida. João Maria vai divorciar-se de Mariana em 09 de novembro de 1921 e casar-se com Henriqueta em 04 de julho de 1922. Em 03 de julho de 1954, João Maria Espanca virá a falecer, depois de, na Conservadoria do Registro Civil de Vila Viçosa, ter perfilhado Florbela em 13 de junho de 1949.
1916: Em meados de abril de 1916, vivendo novamente em Redondo, Florbela seleciona, dentre a sua produção poética cerca de trinta peças produzidas a partir de 10 de maio de 1915, com as quais inaugura o projeto e o manuscrito Trocando Olhares. Esse caderno (32,2 X 11 cm), contendo capa dura e apresentando quarenta e sete folhas, encontra-se hoje depositado no seu espólio da Biblioteca Nacional de Lisboa. Compreende oitenta e oito poemas e três contos e parece se impor, da maneira como subsiste, como uma expressiva? Oficina literária? Acolhendo projetos poéticos de distintas naturezas, anotações, refundições de poemas em páginas que por vezes, se assemelham a palimpsestos. Prestou-se ele também como matriz a duas antologias dali retiradas na altura, como importante foco irradiador de peças que emigrarão refundidas, para o Livro de Mágoas e para o Livro de Sóror Saudade, e, enquanto campo temático, como precioso propulsor para o restante da obra de Florbela. Datam também de 1916, os primeiros esforços da jovem poetisa para ser publicada, e a sua correspondência com Madame Carvalho, diretora do suplemento “Modas e Bordados? De O Século de Lisboa, tem início em 08 de janeiro desse ano. Ao longo de 1916, Florbela inicia colaboração no mencionado Suplemento, em Notícias de Évora e em A Voz Pública de Évora. Muitos desses poemas, enviados a Júlia Alves (com quem enceta correspondência a partir de junho de 1916 e que se alonga até 05 de abril de 1917), serão recuperados e publicados no póstumo Juvenilia. Portugal inicia a sua intervenção na Primeira Grande Guerra Mundial em 09 de março de 1916, e Florbela, entusiasmada com a causa republicana, começa a partir de princípio de junho, a se ocupar de um novo projeto poético, A Alma de Portugal, em “homenagem humilíssima à pátria que estremeço, Como o registra a sua correspondência e segundo o atestam os poemas do referido manuscrito. Logo após 18 de julho, ela está enviando a Raul Proença, por meio do pai, que é amigo de Luís Sangreman Proença (irmão do intelectual republicano), a sua antologia “Primeiros Passos”. A apreciação do importante Conservador da Biblioteca Nacional de Lisboa, de que Florbela toma conhecimento nos dias imediatamente anteriores a 12 de agosto, será fundamental para o auto reconhecimento do que produzia até então, bem como valiosa para a definição da sua personalidade poética. O exame do parecer de Proença demonstra ter sido ele o único crítico efetivamente competente com que Florbela deveras dialogou com o acontecimento verdadeiramente isolado nos minguados horizontes literários da sua existência. A crer nas únicas duas peças da correspondência de Florbela com o republicano (depositada no espólio de Proença na Biblioteca Nacional de Lisboa), a interlocução crítica que com ele manteve deve ter-se alongado pelo menos até 1927 (quando Proença foi exilado em virtude de sua publicação primeiro panfleto contra a ditadura militar, e foi decisiva para o engendramento e seleção dos sonetos que perfariam o Livro de Mágoas e, quem sabe, também o Livro de Sóror Saudade, visto que nessa obra se acham traços da continuada epistolografia (o Prince Charmant…, é a ele dedicado, tendo sido antes publicado, em 1º de agosto de 1922, no n.º 16 da Seara Nova, revista literária que se tornou o símbolo da resistência ao salazarismo e do qual Proença era um dos fundadores e integrantes do corpo diretivo). Por volta de 28 de julho, Florbela reavalia o seu manuscrito e elege peças que, ao lado de outras que comporá, perfarão mais um dos seus projetos poético: O Livro d’Ele. Em outubro do mesmo ano, a poetisa está de volta a Évora como explicadora no mesmo Colégio. Por essa altura, engendra um novo projeto poético, indicado no manuscrito, apenas pelo título das duas partes que o compõe: Minha Terra, Meu Amor, condensando nele a essência dos abandonados Alma de Portugal e O Livro d’Ele. Apenas em novembro retoma o liceu interrompido, de maneira que concluirá o Curso Complementar de Letras em 24 de julho de 1917.
1917: Florbela encerra o manuscrito Trocando Olhares em 30 de abril desse ano (quando se dá a mencionada interlocução com a poética de Américo Durão), regressando posteriormente a ele para anotações acerca de uma nova antologia, a Primeiros Versos (provavelmente destinada à leitura de Raul Proença), e para rascunhar refundições de poemas presentes ou não no caderno.
Apeles, que tem dotes artísticos e que pratica sensivelmente a pintura, está seguindo carreira oposta em Lisboa: em 19 de agosto, termina o Curso da Escola Naval, graduando-se aspirante. Em 09 de outubro, Florbela, vivendo desde setembro na capital do país subsidiada pelo pai, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que abandonará em meados de
1920: dentre os trezentos e quarenta e sete alunos inscritos, é de apenas quatorze o número de mulheres. Conhecerá aí José Schimidt Rau, Américo Durão, João Botto de Carvalho, por intermédio de Apeles, que também se aplica em mostrar para a irmã a vida artística de Lisboa, acompanhando-a na visita a exposições. Embora Florbela tenha sido colega de Alfredo Pedro Guisado na Universidade, ligado, portanto, ao grupo Orpheu, não há nenhum indício de que ela tenha tomado conhecimento da existência do Modernismo em Portugal nem dos seus mentores, embora a temática da “despersonalização atravessasse, mas como condição feminina, a sua obra, que, nesse aspecto da “fragmentação, aparenta-se sobretudo com a de Mário de Sá-Carneiro.
1918: Em abril, Florbela que se encontra adoentada, vai com o marido a Quelfes (Algarve) para repouso, permanecendo o casal hospedado em Olhão, na casa de Dorothea Moutinho. A carta que envia dali a Proença, em 07 de maio, atesta a efabulação do volume que se tornaria O Livro de Mágoas.
1919: Em junho vem à luz, pela Tipografia Maurício de Lisboa, o “O Livro de Mágoas, dedicado” “A meu Pai”. Ao meu melhor amigo? E querida Alma irmã da minha. Ao meu irmão e, já em seguida, Florbela começa a trabalhar num novo projeto que, entre essa data e pelo menos o final de 1922, terá seu título oscilando entre Livro do Nosso Amor e Claustro de Quimeras, conforme o atestam dois diferentes manuscritos depositados na Biblioteca Nacional de Lisboa. Durante toda a fase em Lisboa que intermitentemente, se prolonga até novembro de 1923, Florbela está sempre em contato com Buja, que ali reside então, e trabalha como explicadora particular de português. Data de tal experiência profissional a amizade com Aurélia Borges que, após sua morte e por ocasião do moroso affaire, se transformará em empenhada defensora da causa florbeliana, publicando, entre outras obras, o Florbela Espanca e sua obra (1946).
1921: Apeles é graduado guarda-marinha pela Escola Naval. Em 30 de abril é decretado, em Évora, o divórcio de Florbela com Moutinho. Em 29 de junho, Florbela se casa, na Conservadoria do registro Civil do Porto, com o alferes de artilharia da Guarda republicana, Antônio José Marques Guimarães, então com 26 anos, e o novo casal vai residir naquela freguesia, transferindo-se, em março de 1922, para uma Quinta na Amadora e, já em junho do mesmo ano, para Lisboa.
1922: Apeles que está em vias de tornar-se segundo tenente, presta serviços no cruzador “Carvalho Araújo, que transporta, de Portugal para o Brasil, um dos aviões utilizados para a célebre travessia aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Corresponde-se assiduamente com a irmã, que acompanha pelos jornais os acontecimentos e que conserva fotos da façanha, em algumas das quais Apeles se acha presente. Também das incursões do cruzador pela África o irmão lhe dá notícias em cartas bem-humoradas, em que se compromete, por exemplo, a trazer, das caçadas pelo interior de Luanda, umas “penas para um chapéu para Bela.
1923: Em janeiro vem a lume pela Tipografia A Americana de Lisboa o Livro de Sóror Saudade, refundição dos dois manuscritos anteriores: as provas tipográficas do volume se acham depositadas na Biblioteca Nacional de Lisboa. Também lá se encontram, entre recortes ou apreciações manuscritas de outrem a respeito da publicação do Livro de Mágoas, sete peças; a propósito do Livro de Sóror Saudade outras sete, além de duas outras que atestam comentários de passagem sobre a sua poesia-que Florbela conservou. Tal montante certifica, pois, que ela acompanhou com atenção, recortando e guardando para si, a pífia repercussão das usas obras. Em novembro, a poetisa se encontra novamente adoentada e segue para Gonça (Guimarães) a fim de tratar-se.

1924: A 4 de abril, em Lisboa, Antônio Guimarães entra com o pedido de divórcio contra Florbela Espanca, na 6ª Vara Cível, que será deferido em 23 de junho de 1925. Em setembro de 1925, Antônio Guimarães se casa com Rosa de Oliveira Roma Leão e, muito mais tarde, ele fundará em Lisboa uma importante agência, a de “recortes, que se aplica em através de assinaturas, enviar para os respectivos autores qualquer matéria publicada que lhes diga respeito. Não deixa de ser curioso que o espólio pessoal de Antônio Guimarães se componha do mais abundante material que sobre Florbela se publicou desde 1945 até 1981, ano em que faleceu em Lisboa: são cerca de cento e trinta e três recortes.
1925: Em 15 de outubro, ela se casa, na Repartição do registro Civil de Matosinhos (e a 29 do mesmo mês na Igreja do Bom Jesus de Matosinhos), com Mário Pereira Lage, médico que contava então trinta e dois anos, passando o casal a residir em Esmoriz e transferindo-se em junho de 1926, para a casa dos pais de Lage, em Matosinhos (Porto). Data dessa época uma foto sua, ao lado e outras senhoras numa campanha para angariar fundos para a Cruz Vermelha.
1926: É publicado o decreto ditatorial, com força de lei, que dissolve o Congresso da República. Apeles gradua-se primeiro-tenente da Marinha.
1927: Durante esse ano, Florbela começa a colaborar no D. Nuno de Vila Viçosa (cujo diretor é José Emídio Amaro), e os poemas ali estampados são por ela indicados como pertença de Charneca em Flor. Inicia também o seu trabalho de tradutora de romances franceses para a Civilização do Porto, função que desempenhará até a morte, e em 15 de maio, numa carta a José Emídio Amaro, dá notícias de Charneca em Flor, que diz ter pronto, e de um livro de contos que está preparando, provavelmente O Dominó Preto. Em vôo de treino com o hidroavião Hanrior 33, em 06 de junho, Apeles mergulha no Tejo, diante de Porto Brandão, cumprindo, presumivelmente, a decisão que expusera a irmã em carta imediata a morte da noiva (Maria Augusta Teixeira de Vasconcelos), ocorrida em dezembro de 1925. Florbela reage heroicamente pondo-se a produzir com afinco um livro de contos, à memória dele dedicado - “A meu Irmão, ao meu querido morto, o As Máscaras do Destino. Mas desde então, embora continue a colaborar no D. Nuno, a escrever poemas que provavelmente, já constituem o póstumo Reliquiae; embora se esforce por fazer publicar o último livro de contos, e embora permaneça com a tarefa das traduções - ela se declara quase permanentemente deprimida, doente dos nervos, fumando em demasia e emagrecendo sensivelmente.
1930: Inicia a colaboração no recém-fundado Portugal Feminino com poemas e contos, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos de Porto; deslocando-se de vez em quando para Évora ou para Lisboa, onde participa das reuniões da revista feminina (e há mesmo uma foto publicada na altura pelo Portugal Feminino, que registra esse acontecimento, na qual Florbela se acha presente ao lado de outras intelectuais e feministas, como Elina Guimarães, Maria Amélia Teixeira, diretora da revista, Branca da Gonta Colaço, Ana de Castro Osório, Alice Ogando, Maria Lamas, Thereza Leitão de Barros, Laura Chaves e Fernanda de Castro).
O seu Diário do último ano, encetado em 11 de janeiro, dá conta do estado de solidão em que Florbela está mergulhada: “O olhar dum bicho comove-me mais profundamente que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar e não pode, princesa encantada por qualquer fada má. Num grande esforço de compreensão, debruço-me, mergulho os meus olhos nos olhos do meu cão: tu que queres? E os olhos respondem-me e eu não entendo…. Ah, ter quatro patas e compreender a súplica humilde, a angustiosa ansiedade daquele olhar! Afinal…de que tendes vós orgulho, ó gentes. E certamente não é em vão que Florbela se faz acompanhar, durante esse último percurso, por essa imagem: não é o cão mitológico guardião da morte. Em 18 de julho, dá início à correspondência com Guido Battelli, que, entre 18 de novembro até a última peça, de 5 de dezembro, apenas registra a sua preocupação pelo aspecto estético e comercial do Charneca em Flor, que se encontra no prelo, e pelas provas tipográficas da obra, das quais ela chaga a revisar mais de uma dúzia de folhas. Seu Diário se encerra em 02 de dezembro com uma única frase “e não haver gestos novos nem palavras novas! Na passagem de 07 para 08 de dezembro, Florbela d’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos e é enterrada, no mesmo dia 08, no Cemitério de Sedin. Seus restos mortais serão, em 17 de maio de 1964, transportados para o Cemitério de Vila Viçosa, “a terra alentejana a que entranhadamente quero como à terra natal 
tiveram oportunidade de se referir na mencionada carta a José Emídio Amaro, em 15 de maio de 1927.

1.1   A ARTE ETERNA DO ENCANTAMENTO SEGUNDO A POESIA DE FLORBELA

De acordo com os registros oficiais, a poesia ganhou impulso e teria começando a existir como expressão de arte na primavera de 534 a.C., na Grécia antiga, época em que as primeiras tragédias foram encenadas, por decreto oficial, no Festival de Dioniso, em Atenas e se difundiu no espaço sendo levada para toda a Europa, e daí para o resto do mundo.
A poesia é caracterizada como uma forma de expressão literária que surgiu simultaneamente com a música, a dança e o teatro, em época que remonta à Antiguidade histórica. Ensaístas e filósofos já se preocupavam, então, com a essência da poesia, numa tentativa de desligá-la da matriz onde fermentara com outras expressões, que também foram conquistando autonomia e passando, por características afins, à qualidade de gêneros.
A poesia, ligada à estrutura da narrativa, é a expressão artística que mais discussões têm suscitado em relação à sua essência. Entre os filósofos gregos e os modernos estudos da ensaísta norte-americana Susanne Langer há uma longa escala interpretativa. Para ela, a poesia não é mais representativa, pois desvinculou-se da preocupação de imitar a natureza. O inglês Herbert Read, também, chega a conclusões semelhantes, quando estabelece a diferença entre poesia e prosa: "na prosa, as palavras implicam, geralmente, a análise de um estado mental, ao passo que na poesia as palavras aparecem como coisas objetivas, que mantêm uma definida equivalência com o estado de intensidade mental do poeta."
Poetas e leitores, críticos e historiadores, teóricos e professores tem-se reportado, ao longo da história, à poesia e ao poema, ora como coisas distintas, ora como coisas identificadas. São inúmeras as tentativas de definição, mas nenhuma se apresentou com a universalidade e o rigor necessários à sua afirmação estética, filosófica ou cientifica como a de Lyra. Para Pedro Lyra (1986:06) a poesia é situada de modo problemática em dois grandes grupos conceituais: ora como uma pura e complexa substância imaterial, anterior ao poeta e independente do poema e da linguagem, e que apenas se concretiza em palavras como conteúdo do poema, mediante a atividade humana; ora como a condição dessa indefinida e absorvente atividade humana.
“Já na visão de Guilherme de Geir Campos, "poesia é antes de tudo, comunicação efetuada por palavras apenas, de um conteúdo psíquico (afetivo-sensório-conceitual), aceito pelo espírito como um todo, uma síntese". Nesse conteúdo anímico predominará às vezes o sensório, outras vezes o afetivo, outras o conceitual, pois o poeta ao expressar-se nunca transmite puros conceitos, quer dizer, nunca transmite conceitos sem mescla de sensorialidade ou sentimentalidade. ” (Bousono in Campo, 1975:130).
Segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2009), a poesia ainda pode ser definida como "arte de escrever em verso, composição poética, inspiração, o que desperta sentimento do belo". Contudo, a poesia prolonga e exercita em nossos tempos a obscura e imperiosa angústia de posse da realidade, e cada poema nada mais é do que uma armadilha onde cai um novo fragmento dessa mesma realidade, onde o poeta se transporta completamente para esse novo cosmo em busca da sua própria existência.
Mediante a tudo que fora explicitado sobre poesia, pode-se afirmar que o poeta herda dos seus remotos ascendentes uma ânsia de domínio, embora não há na esfera factual, pois o mago, nele foi vencido e só resta o poeta, mago metafísico, evocador de essências, ansioso pela posse crescente da realidade no plano do ser. Desta maneira, Florbela Espanca pode ser considerada um exemplo concreto, pois apresenta de forma original suas manifestações poéticas aquém da necessidade desse outro ser, um inconsciente imaginativo a impulsionar os sentimentos desde seu íntimo.


1.2   A ETERNA BUSCA DA ARTE DE AMAR ATRAVÉS DA POESIA FLORBELIANA

Baseado nesta ideologia, a poesia de Florbela assume um eminente papel de exteriorizar o que há de mais belo e extraordinário guardado em seu coração. Assim, a eterna busca pelo amor ideal pode ser vista de forma intensa em suas palavras, algo naturalmente humano, mas que nem todos têm a ousadia de externalizar. Amar e ser amado é tão profícuo quanto a existência da alma que alimenta o próprio corpo, e quando a ausência se faz presente destrói o sorriso mais puro de alegria. Esta ausência chama-se solidão, caracterizada por uma dor profunda, fobia, incompletude, vazio, escuridão e desistência.
Percebe-se em sua obra, principalmente as publicadas a partir de 1918 a 1930, a predominância pelo uso do soneto. Dentro desta pequena fórmula métrica e estrófica, ela se sente à vontade para transmitir a sua perturbante e sombria interioridade. A sua poesia é de um dos mais flagrantes exemplos de poesia "viva", pois ela nasce, vibra e se alimenta do seu muito real caso humano; do seu porventura demasiado caso humano.
Segundo Oliveira (1987: 50) é no canto de amor que Florbela constrói a sua melhor poética feita na mistura de tristeza e ternura, de dor e de auto complacência, de pranto e de projeção idílica, de desgraça e de vocação abençoada, nascido esse canto de uma possibilidade malograda e compensado pela nostalgia cuja fraqueza e cuja força vêm da fatalidade que o determina, como se pode observar ao longo dos versos do poema "Cantigas leva-as o vento" de Florbela.

“A lembrança dos teus beijos
Inda na minh' alma triste, 
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.
(...)
Amar a quem nos despreza
È sina que a gente tem. ”

Para Anthony Giddens (1993:10), o amor pressupõe a possibilidade de se estabelecer um vínculo emocional durável com o outro, tendo-se como base as qualidades intrínsecas desse próprio vínculo. É o precursor do relacionamento puro, embora permaneça em tensão em relação a ele. Fica evidente que para o autor é necessário se manter um laço mais consistente entre os amantes, mas nem sempre esse desejo é compartilhado e contínuo entre os seres humanos.
Verifica-se que o amor é tratado, na obra florbeliana, como essência da vida, pois antes de se buscar um alguém especial, visa-se viver um amor, como bem apresenta o verso retirado do livro (Hora que passa, 1923), "minh’ alma sem amor é cinza e pó". Nesta perspectiva, o amor é visto como um objeto de uma procura interminável que recomeça a cada alvorada junto ao ser, dominado pelo sentimento do vazio.
O que caracteriza Florbela Espanca é a insatisfação, a insaciabilidade, a ansiedade de atingir seus objetivos, principalmente, os referentes ao coração. Poetisa do amor como tantos outros, sobretudo através de suas atitudes amorosas, confessa os "transportes" dos seus sentidos, sem timidez, pejo ou outro elemento que a limitasse, ainda que uma vez ou outra por sólidos áridos. O que evidencia que nasceu daí, então, suas infindáveis decepções, como se pode observar nos versos que seguem retirados do poema "Realidade", in "Charneca em Flor",), onde a constituição do "Eu", do sujeito, parece serio centro das preocupações dela nos poemas que se inscrevem nessa temática.

“Tens sido vida afora o meu desejo
E agora que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi....

Deus fez-me atravessar o teu caminho.
- Que contos dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim sem me encontrares?

Eu ando a procura-te e já te vejo!...
E tu já me encontraste e não me vês!...
(...)”

ANALISE I

Pode-se afirmar que a poetisa sofre porque a sociedade não compreende o conflito íntimo e a escorraça, por querer a realização de um amor que catalogam de imortal, sem lhe compreender o alcance e a atitude. Mais que a hipócrita condenação social, sofre a ausência dum "outro", ou melhor, do "outro", para satisfazer-lhe a ânsia dum amor mais forte que a vontade e as convenções burguesas, conforme denunciam as estrofes abaixo do poema "Amar", da obra Charneca em Flor (1930).

“Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
(...)
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira
É porque mente!
(...)”

Dessa forma, a poesia de Florbela mostra toda uma ampla gama de estados emocionais ligados ao amor, desde a exaltação dos sentidos (entrega por inteiro), até ao desejo de sacrifícios, oscilando entre momentos de plenitude e de grande fragilidade emocional, decorrentes de relações amorosas frustradas ou que não corresponderam as suas expectativas. Assim, para Florbela, amar é uma experiência única, é a força impulsionadora da sua alma, e por isso quer amar, amar perdidamente.
Acrescenta, ainda, que a paixão (além do amor, o ódio e a ignorância) é, justamente, a alienação do desejo no objeto. Em sua face simbólica, diferentemente, o eixo do amor é situado, não no objeto, mas naquilo que o objeto não tem. Como dom ativo, o amor visa o ser, para além da captura imaginária, sustentando-se e equivocando-se na trama significante. O que Lacan sublinha é, sobretudo, a falta de harmonia fundamental entre sujeito e objeto. Como a linguagem, o amor, em sua vertente simbólica, revela um esforço, sempre precário, de fazer frente ao real da falta.

ANALISE II

A autora foi incumbida pelo destino de encontrar o amor e, como não o encontrou, foi predestinada para não o encontrar, foi predestinada para acabar em desilusão. A nomeação é também, muito crítica na poesia de Florbela Espanca, e, como se pode observar neste soneto, Florbela usa maiúsculas nas palavras o "Destino", a "Vida" e o "Amor". Trata-se, portanto da personificação de termos abstratos que são, obviamente, palavras-chave do soneto. Para Octavio Paz:

"O amor é um estado de reunião e participação aberto aos homens: no ato amoroso a consciência é como a onda que, vencido o obstáculo, antes de se desmanchar, ergue-se numa plenitude na qual tudo (...) alcança um equilíbrio em apoio sustentado em si mesmo (...) Sem deixar de fluir o tempo se detém repleto de si" (1981:29).

Verifica-se através da assertiva que o amor é uma construção conjunta, onde ambas as partes se beneficiam de forma mútua e se completam, sem com isso um intervir na busca do equilíbrio alheio, mesmo correndo os riscos de ser atingido por fortes tempestades.
E, finalmente, mais tarde, a legitima e orgulhosa inspiração poética de Florbela atinge seu verdadeiro auge. Então, encontra-se suprema e verdadeira expressão no soneto "Mais Alto", in: Antologia de Poetas Alentejanos.

Mais alto, sim! Mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,

Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher! ”

Visto isso, o escritor Jorge de Sena, em seu livro intitulado "Florbela Espanca e a expressão do feminino" (1947), chamou a atenção para este soneto de Florbela, pois o que para muitos parece orgulho, megalomania, delírio, não é senão outro aspecto do que ao mesmo tempo, incapacitou Florbela para a vida do mundo, e a predestinou para a arte: o sempre querer mais. Começando pelo vulgar sonho do amor de um, ei-la que chegou ao amor, ao sonho do amor de um Deus, ao amor cósmico... E não é de crer que um qualquer amor tivesse atingido, ou pudesse atingir descanso. Ela que logo no poema "Eu" do Livro de Mágoas escreveu estes versos extraordinários: "sou talvez a visão que Alguém sonhou, alguém que veio ao mundo para me ver, e que nunca na vida me encontrou!".
Uma outra forma de amor que pode ser encontrada ao longo das belíssimas produções poéticas de Florbela Espanca é o amor dedicado ao seu irmão Apeles, a quem dedicou com muito ternura e cumplicidade desde a infância. Sua relação era muito próxima, pois trocavam cartas íntimas sobre relações amorosas, e, outros sim, sobre a relação entre si. Tal relação deu início a várias polemicas sobre incesto.

Contudo, a poetisa dedicou nas suas obras a expressão de seu amor fraterno, em particular no poema "Roseira Brava".

“Há nos teus olhos um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.
Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio Amor!
Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!
Tua irmã… teu amor… e tua amiga…
E também, toda em flor, a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha! …”

Segundo Cláudia Alonso (1997, p: 31-32), Florbela delineou, em seus versos, várias imagens de si, por vezes diametralmente opostas. Subjacente a todas as imagens que ela constrói de si mesma, está o problema da identidade feminina, pois a cada poema escrito e a cada livro finalizado, um pouco mais de Florbela se revelava ao mundo. Através de seus escritos, Florbela teve a ousadia de mostrar-se como mulher que conclama o direito de sentir e dar prazer, embora só começasse a ser publicamente reconhecida muitos anos depois.
Baseado no que fora exposto, observa-se, então, que o amor em Florbela aparece em nuances variadas, desde a exploração do amor incondicional, o arrebatamento amoroso, a louvação ao amor, sua valorização extremada, até sua desvalorização pelo outro, ao qual sempre fora objeto de desejo, mas, ironicamente, em sua essência nunca foi concretizado. Em suma, o universo poético de Florbela Espanca admite muitas portas para desvendá-lo, principalmente, quando se trata das suas múltiplas facetas relacionadas ao amor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como se pode observar, a poesia florbeliana foi, portanto, em grande parte inspirada pela sua própria vida e pelas relações que fizeram parte dela, pois é de uma grande expressividade dramática, possui uma carga emocional que a torna diferente da poesia contemporânea. Ela é a sua obra e a sua obra é ela, e em quase todos os seus poemas existe uma prova flagrante dessa identificação absoluta, daí que se tenha escolhido estas poesias como paradigma de um tempo e de uma ambiência mental feminina.
Enfim, a preocupação com o fazer poético nas poesias aqui estudadas cultiva uma reflexão, uma atitude de questionamento e uma tentativa de tradução do sentimento. Por conseguinte, a poesia de Florbela caminha para a fusão da vida e da poesia, numa incessante busca da plenitude artística. E, quiçá, o processo de criação para atender às pressões do inconsciente é que levaram Florbela a uma permanente angústia de nunca conseguir expressar-se na proporção em que a força erótica de sua alma oculta o exigia.
Florbela Espanca possuiu como que uma predisposição para o sofrimento e por isso cultivou-o, desenvolveu-o, deixou-o crescer ainda mais dentro de si, escrevendo e referindo constantemente o passado, insistindo numa recordação saudosista exagerada. Destarte, não é fácil compreender tamanhas sensações e sentir-lhes a beleza, mas ela está lá, num ponto que ultrapassa muitos de nós, pois como a própria poetisa escreveu: "ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALONSO, Cláudia P. Imagens do eu na poesia de Florbela Espanca. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1997.
ARAGÃO, Patricia Pires de. O Donjuanismo na Poesia de Florbela Espanca: "amar, amar e não amar ninguém!". Monografia apresentada ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Porto Alegre: Revista Agulha, 2004. Disponível em: www.revista.agulha.nom.br/monografiapatriciaaragao.
ESPANCA, Florbela da Conceição. Sonetos. Porto, Portugal: 11 ed., Livraria Tavares Martins.
ESPANCA, Florbela. Poesia de Florbela Espanca. Porto Alegre: L&PM, 2002.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Movo Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: 4ª ed.revista e atualizada, ED. Positivo, 2009.
FREIRE, Antonio. O Destino em Florbela Espanca. Porto: Edições Salesianas, 1977.
GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor & erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Fundação de UNESP, 1993.
LEITE, Julia Cristina Tosto. Estudos em Teoria Psicanalítica: dimensões do amor. Rio de Janeiro.Agora vol.8 nº. 01. Rio de Janeiro, Jan./June 2005.
LYRA, Pedro. Conceito de poesia. São Paulo: ed. Ática, 1986.
MENDES, Jerônimo. História da Poesia Universal. Curitiba: 2001. Disponível em: www.jeronimos.com.br/Poesia%20Universal.pdf. Acesso em agosto de 2009.
OLIVEIRA, Rosalva Simoes de. Florbela Espanca: a poetisa de mil amores. Sitientibus: Revista da Universidade Estadual de Feira de Santana, Vol. 4, n. 7, p. 48-67, 1987.
PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
SENA. Jorge de. Florbela Espanca. Florbela Espanca e a expressão do feminino na poesia portuguesa. Porto, Portugal: Biblioteca Fenianos, 1947.
SHEILA, Katiane Staudt. O Don Juan em Florbela. Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas, PPG-LET-UFRGS, Porto Alegre, Vol. 03 N. 02, jul/dez, 2007.
TRUFFAUT O, François. Cinema segundo François Truffauto. Editora Nova Fronteira, 1988.

Ana Paula Quintanilha Bastos de Jesus, mestranda em Ciências da Educação pela UNIVERSITY UNIGRENDAL, graduada em Letras pela Unisa, Pós-Graduada em Educação Especial Inclusiva pela FGF – Faculdade Integrada da Grande Fortaleza, Complementação Pedagógica em Artes Visuais pela Faculdade Uni-Ítalo. Tem sua experiência voltada para Educação Especial, Professora de Espanhol pela Prefeitura Municipal de Embu das Artes e de Artes no Estado de São Paulo. Apresentou um trabalho intitulado: Os Entraves da Inclusão dos Alunos Surdos no Ensino Regular, no Congresso da Faculdade Polis das Artes, tendo como titulo “Compartilhando Saberes: Sonhos, Experiências e Possibilidades”, no Embu das Artes. Desenvolveu um trabalho voltado para Inclusão na SAED – Sala de Apoio ao Estudante com Deficiência, preparando material pedagógico para que os alunos possam interagir com todos (Inclusão Social)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

[Resenha] Pelo largo o pelo corto?: Look del jet set inca masculino, por Adrián Ilave

"El inca dijo a uno de los suyos: Si los españoles no hubieran hecho más que traernos tijeras, espejos y peines, les hubiéramos dado todo el oro y plata de nuestra tierra" (Inca Garcilaso de la Vega)



Todos hemos crecido pensando que los incas poseían una enorme cabellera, media despeinada y sin gracia. Pues como siempre, la educación tradicional en las escuelas y las actuales representaciones teatrales como el Inti Raymi del Cusco, junto con los estereotipos hollywoodenses nos dan a un inca pelucón y con un traje repleto de colores a veces mal combinados.

Si bien en muchas sociedades prehispánicas americanas el culto al cabello largo fue predominante, al parecer en el imperio inca era lo contrario.

Según lo que nos cuentan los cronistas, la nobleza inca, solía tener la costumbre de deformar la cabeza desde muy pequeños, cortarse el cabello e intercambiarlo por importantes obsequios y lucir unas buenas orejeras de oro, plata u otro material otorgadas por el emperador (llamadas ahora alargadores, muy de moda entre la juventud del S.XXI) y que era usada solo por la elite inca.

EL propio emperador ordenaba a la nobleza a cortarse el cabello, ni tan largo ni tan corto, a la altura de la oreja, ya que sólo él usaría el corte casi al ras de la nuca como si se tratase de un actual soldado. Por consecuencia podía lucir sus orejeras doradas y su borla colorada (corona). No obstante, el pueblo  se distinguía por sus peinados, trenzados y adornos que les daba una identidad. Según el cronista Cieza de León, dice que podrían haber miles de indios juntos y que por sus peinados y tocados se podía saber a cuál región pertenecía cada grupo. Por otro lado, habían excepciones entre el pueblo a la hora de realizar ritos de pagos y protección a los dioses, tales como el ofrendar cabellos, cejas y pestañas a las huacas para pedir protección, lo que convertía al cabello en un objeto de reciprocidad entre el hombre y la deidad que los españoles nunca pudieron comprender.

Nos cuenta Garcilaso, que "el Inca tenía el cabello corto, como si acabase de ser cortado y que él y la nobleza se cortaban frecuentemente el cabello para tener siempre el mismo aspecto. El único nica que tuvo el cabello largo fue Atahualpa, pues nuestro último emperador perdió una oreja en una batalla en Pasto, en la actual Colombia. Los emperadores tenían pavor a la imperfección. Cuando elegían al nuevo sucesor, aparte de tener habilidades para gobernar, debía tener un aspecto impecable y atractivo, para ser un digno hijo del Sol, cosa que no le favorecía a Atahualpa con una sola oreja. Y para mala suerte del inca, fue de su larga cabellera que Pizarro lo captura al subirse a su litera.

Posteriormente en la colonia y con la constante extirpación de idolatrías, fue prohibido el uso de peinados y cortes de cabello de carácter ritual bajo la ley del Concilio Limense (1551-52) donde se prohibió la "deformación craneana, el corte de cabello y trenzados especiales" así como la verificación del cumplimiento de la ley a través de amenazadora pregunta al indio: Quién trasquiló a su hijo y quien tiene guardado su cabello? Por lo tanto, el corte de cabello comenzó a ser clandestino. Muchas personas utilizaban pelucas para no mostrar el corte o peinado ritual, pero al ser descubierto por los sacerdotes, hombres y mujeres fueron trasquilados públicamente. 

Por consecuencia, la identidad filosófica del cabello, pasó de haber sido un símbolo de ofrenda , reciprocidad y estatus al de la humillación y decaimiento del autoestima y la filosofía que los andes habían cuidado durante milenios. 

Adrián Ilave é artista e historiador dedicado a promover a cultura pre-hispânica do Peru atraves das artes plasticas em geral, do design de interiores e da historia na America Latina.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

[Resenha] El matrimonio del Inca Huáscar: La fiesta más rica de la historia, por Adrián Ilave


Siempre me pregunté: ¿Cómo habrán sido los matrimonios en la época inca? Entonces, en mi afán de investigar y por el espíritu curioso que tengo sobre la historia del Perú, me puse a leer a Fray Martín de Murúa, un cronista mercedario que vivió en el Virreinato peruano entre el S.XVI y XVII y que se dedicó a evangelizar “a los miserables de poca fe" (siempre me río por la forma en que hablaban los evangelizadores de esos tiempos) y que fue amigo de época del gran Huamán Poma, porque al parecer nuestro cronista indígena era su dibujante (en las crónicas del fray se ve la mano artística de Huamán) y pues como nuestros khipus y sus intérpretes fueron exterminados y tampoco se preocuparon por pasar a papel el significado de los nudos, me ayudo de la crónicas. Huáscar fue coronado con la borla imperial y pues según lo que leí de Murúa, el Inca era un joven con poder y sin límites: derrochador, loco, autoritario y engreído, pero también tenía un afán interesante de modernizar la ideología inca en su época, sobre todo cuando quiso reformar el sistema de panacas (familias reales) que estaban prácticamente privatizando el imperio mediante latifundios y que no estaban dejando tierras al Estado. Atahuallpa y gran parte de familias nobles tradicionales estaban en contra de los nuevos pensamientos de Huáscar (ahora saben por qué lo mataron) Entonces podríamos decir que dentro de su tiranía, era un rebelde que iba en contra del sistema clásico, lo cual me parece super cool para una historia que siempre nos pinta a nuestros incas como “seres divinos, perfectos y que se llevaban bien con todos”. Según el fray, Huáscar realizó la fiesta más rica y espectacular que pudo haberse contado en la historia universal. Luego que su papá Huayna Cápac se fuera al otro mundo a encontrarse con el Sol, tuvo que buscar a su prometida principal, la nueva coya (la nueva reina) y que obviamente tenía que ser una mujer de sangre noble y con muchas riquezas para que juntos aumenten el poder de la nueva panaca. Pero no fue fácil. La joven se llamaba Chuqui Huipa y era su hermana (normal casarse entre hermanos incas, no juzguen), pero su mamá se opuso al pedido de mano, porque sabía que el inca era un tirano de primera y probablemente por sus ideologías reformistas. Como Huáscar no aceptaba un "no" como respuesta, optó por darle de su lado: ofreciendo riquezas y ofrendas a las momias de la familia de Chuqui Huipa y a la mamá, cosa que al parecer quedó sorprendida y accedió al pedido del Inca rápidamente.

Que empiece la juerga:
Aceptada la petición, Huáscar pidió a sus organizadores comenzar con los preparativos de la boda: primero que todo el mes antes del matri la ciudad del Cusco quedase totalmente iluminada desde las torres más altas y que hubiera música sin parar por las calles. Todo fue cumplido al pie de la letra, nos cuenta el fray. Se cubrieron de oro y plata las casas de las momias de su abuelo Túpac Yupanqui y de su papá Huayna Cápac. Las torres de los palacios fueron tapizadas con los mejores tejidos de cumbi (que era un tejido fino de vicuña) Lo mismo replicaron en su casa y en la de su futura esposa. Llegó el día del matri. Huáscar salió en andas con todo su séquito por las calles del Cusco, con la imagen de oro del Sol del Qorikancha y la del rayo de plata, las momias de su papá y abuelo y así, con toda su corte se fueron a buscar a Chuqui Huipa. Dicen que cuando la fue a recoger y salieron los dos con sus poderosas y ostentosas cortes a realizar el recorrido solemne por las calles del Cusco, la gente había tapizado las calles con polvo de oro y plata, chaquiras de spondylus y plumas de aves selváticas para que no pisaran el suelo firme los nuevos Hijos del Sol. Esta fiesta duró un mes, porque los invitados no paraban de llegar ya que venían de los cuatro estados, desde la actual Colombia hasta Chile. Huáscar tenía sorpresas para los invitados. Había mandado hacer todo tipo de frutas, verduras, pájaros, platos, vasos, decoración y hasta madera para leña fabricados todo en oro y plata y realizaban banquetes repartiéndolos a los invitados como si fueran para comer de verdad. Trajeron aves y especies exóticas (osos, jaguares, monos, venados, vicuñas, vizcachas, llamas, alpacas, etc.) también vestidos y adornados al estilo inca. En lo que respecta a la comida, la elite inca acostumbraba siempre a sorprender a los invitados con platos nuevos, hechos con verduras, frutas, ají, sal y animales exóticos. 

Asimismo, la chicha fue abundante y la borrachera fue excesiva sin ni siquiera el Inca poner límites. Se dice que la gente se llevaba los adornos de oro y plata de las calles y lugares de fiestas y que el inca no se opuso a dicho exceso. Según Murúa, “ningún señor ni príncipe en el mundo, porque aunque en invenciones, majestad y aparatohaya habido muchas que le han excedido, ninguna de tanta abundancia de oro ni infinidad de plata que como si fueran manjares comestibles se ofrecieron a los convidados” y nos dice entre líneas “cosa nunca hasta entonces vista en fiestas ni casamientos de ningún monarca del mundo desde el primer hombre”

Fuentes: Historia General del Perú, Fray Martín de Murúa.

Adrián Ilave é artista e historiador dedicado a promover a cultura pre-hispânica do Peru atraves das artes plasticas em geral, do design de interiores e da historia na America Latina.